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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Criação: fervor ou perfeição?

“O homem é em primeiro lugar aquele que cria”, define Saint-Exupèry no livro Cidadela, afirmando mais à frente: “Não queiras inventar um império onde tudo seja perfeito”.


A frase perfeita
nem sempre é bonita.
Escrita ou não,
é aquela que cala,
que toca a ferida,
é aquela que fala.
Há tanta coisa há ser dita
e não é.
Se a gente repete o poeta
e não cria
a palavra se vai,
se esvazia,
e a frase (bonita?)
nem mesmo é perfeita...

O que importa, lembra Exupèry, é o fervor e a colaboração: “Criar é talvez falhar um determinado passo na dança. E dar de lado este golpe de cinzel na pedra. O destino do gesto pouco importa. Esse esforço parece estéril a ti, cego, que tens o nariz encostado nele, mas experimenta dar um passo atrás. Observe mais de longe o movimento deste bairro de cidade. Só vês subir de lá um grande fervor e a poeira dourada do trabalho. E não reparas nos gestos falhos”.

Já que temos que andar,
por que não fazer dançar
o pé, o corpo, o ser?
Já que temos que andar
por que não dançar de sombrinha
na corda bamba da vida?
Pra ver nascer um outro dia,
eu despi a fantasia
que não era a minha,
eu larguei a poesia
que era só palavras e linhas...
Hoje quero só o que somos,
por que eu não sou sem você!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Do erótico ao pornográfico. A criação está em risco?

Prova de Sociologia no Ensino Médio regular em uma escola da rede pública de São Paulo. Legião Urbana servia de provocação: "Geração Coca Cola", de Renato Russo e Fê Lemos.
"Quando nascemos fomos programados", dizia a canção, "a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, das 9 às 6. Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial".
"Professor", me perguntou espantado um aluno, "que negócio é esse de comer lixo?".
"Cara", pensei eu, "como ele pode ler ao pé da letra a canção?".

* * *

Aqui entre nós: teria sido mais fácil se a gente tivesse nascido mais forte. Ou mais rápido. Mais ágil! Teria sido mais fácil se tivéssemos garras ou presas. Ou se nossa visão, olfato, audição fossem capazes de perceber coisas a quilômetros de distâncias.
Mas, não! A gente nasceu assim, cheio de deficiências. Nem pelo pra proteger do frio a gente recebeu da natureza... Só essa camada fina de pele para embalar músculos e ossos, artérias, veias e nervos.
Dá pra acreditar que a gente chegou até aqui, depois de milhares de anos vivendo sobre a Terra? O que é que a pessoa humana tem em si que permitiu a sobrevivência da espécie e sua adaptação aos ambientes mais hostis?
Nenhum outro ser vivo tem a capacidade que o ser humano tem de criar símbolos. Nenhum, como ele, é capaz de representar a realidade que percebe através de sons, imagens, pensamento. Pelo símbolo que cria, o ser humano faz do obstáculo trampolim: ele acessa, manipula e até recria a realidade. Pouco a pouco foi criando ferramentas e máquinas que compensaram o que a natureza não lhe deu.

* * *

Li numa revista de cinema, anos atrás, que Ridley Scott passou um bom tempo pensando como produzir e inserir no cenário o monstro de "Alien: o oitavo passageiro" (1979). Clássico da ficção científica de terror, foi produzido numa época em que a computação gráfica ainda engatinhava e não era opção economicamente viável. O diretor, então, optou por mostrar de forma muito rápida apenas detalhes do monstro. Decisão acertada. Impossível não se assustar com o alien, cuja forma final estava apenas em nossa imaginação, povoada por nossos próprios pesadelos e assombrações.
O que abre possibilidades, também pode colocar algemas. A escrita permitiu o registro, a disseminação e a perpetuação da tradição oral, mas criou gramáticas e dicionários e a disputa pelo poder de determinar a interpretação correta.

* * *

No princípio, era o verbo; hoje, a imagem, cuidadosamente elaborada.
No ensaio "O mito do super homem", Umberto Eco analisa a atuação da indústria cultural e mostra como ela desestimula o pensamento criativo e crítico. "Não se preocupe", diz a indústria cultural, "a gente pensa e decide por você. Apenas viva!".
Alien foi recriado e mostrado por inteiro. Aterrorizante nas primeiras exibições. Em "Romeu tem que morrer" (2000), com Jet Li, é possível ver ossos sendo quebrados, de forma extremamente realista.
Mas o susto passa. O que é familiar e corriqueiro não causa espanto. Como não causa mais espanto o indigente dormindo no chão, embaixo das marquizes nas ruas de nossas cidades...
Tão rápido quanto o susto que não é mais, é preciso produzir outros e outros filmes, com monstros mais e mais aterrorizantes, com violência mais e mais explícita.
Também as canções - ao menos aquelas com as quais a indústria cultural massacra os ouvidos da massa - parecem cada vez mais concretas: canções feitas pra pegar (em todos os sentidos)...
Hoje ninguém quer mais saber de histórias contadas ao redor da fogueira. Ninguém quer mais canções sobre luas enamoradas dormindo em um manto de estrelas.
"Um homem se humilha se castram seu sonho", cantava Gonzaguinha; "seu sonho é sua vida e a vida é trabalho". E concluia: "sem o seu trabalho o homem não tem honra, e sem a sua honra se morre, se mata...".
Querem embotar os sonhos, a nossa capacidade de criar, aquilo que nos faz ser humanos. Vamos deixar acontecer?

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Sobre MPB e indústria cultural

Nos muitos pequenos espaços livres de uma vida corrida de grande cidade, sou compositor.
Não faço isso pra viver.
Tive quatro canções gravadas em produções alternativas, sem fins lucrativos. Toco numa pequena capela da periferia de São Paulo, onde o povo canta muitas de minhas canções, sem saber de quem é a autoria.
Mas volta e meia penso sobre a canção e o que ela representa na vida das pessoas. Desde que comecei a compor, ainda adolescente, aprendi uma lição: a melhor canção é aquela que cria uma relação entre as pessoas. Canções que eu achava muito boas foram esquecidas (inclusive por mim); outras, de menor qualidade musical ou poética (na minha opinião), vingaram e se firmaram.
Calipso e outros “fenômenos” se firmaram porque conseguiram falar para seu público, expressar o que essas pessoas gostariam de ouvir (escreveu Exupèry que a arte é dispor o jardim como o outro gosta de ver). Foi assim com Renato Russo, um cantor que iniciou a carreira extremamente desafinado, que se tornou o porta-voz de sua geração. Contudo, é bom lembrar que Calipso já está na grande mídia hoje, embora continue (ou não) com seu esquema de distribuição alternativo (que é uma informação de que não disponho).
A “indústria cultural” se apropria desses fenômenos para ganhar com eles (se não pode vencê-los, junte-se a eles). Mas também para dominá-los.
Calipso e outros escrevem essas canções que o povo gosta de ouvir. Mas o povo gosta de ouvir, na maioria das vezes, o que está acostumado a ouvir (o que lhe é oferecido para ouvir). E O QUE LHE É OFERECIDO NOS MCS, NA FAMÍLIA, NA ESCOLA?
Ministro uma oficina de composição musical nas férias. Apesar de não “curtir” rap, trabalhei muito com um rapper ajudando-o a construir a canção dele, mas fazendo-o ver outros valores, oferecendo-lhe outras perspectivas melódicas e poéticas.
Na capela em que toco, ensaio com as crianças algumas canções e danças da cultura popular brasileira, como catira ou congada. Uma vez estava ensaiando com elas e uma adolescente me pediu pra ver um texto que eu trazia na mão (e não tinha mostrado pra eles ainda). Ela fez um comentário elogiando o texto (era Patativa do Assaré, quem diria).

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

A arte e a defesa da vida

A arte carrega em si o próprio jeito da vida se fazer. Talvez seja isso que faça da arte uma atividade humana tão interessante e tão envolvente.
Pela arte a gente entra em contato com o mundo, estabelece relações entre os objetos e situações que a gente percebe e encontra uma forma de comunicar isso para as outras pessoas. O pensamento racional também faz a mesma coisa, só que de um jeito diferente. Mais do que procurar explicações para alguma coisa, a arte tenta captar e compartilhar uma experiência envolvendo a pessoa através de todos os seus sentidos.
Rudolf Arnheim é um pesquisador da arte, sério e competente. Em Arte e percepção visual, escrito na metade do século 20, ele procurou mostrar como o artista busca construir o próprio trabalho sobre alguns princípios. O interessante é perceber que esses princípios estão diretamente relacionados à maneira da vida acontecer. Chamo a atenção para dois deles: equilíbrio e dinâmica.
Tudo no universo está em relação: é um jeito novo de ver as coisas para o qual a gente precisa se converter, se deseja construir um mundo diferente do que existe hoje. Em qualquer obra de arte, os elementos que o artista usa (cores, formas, sons) estabelecem uma relação entre si. Cabe ao artista encontrar o equilíbrio entre esses elementos. O gozado é que equilíbrio não tem nada a ver com inatividade. Equilíbrio é trabalhar as diferentes forças presentes: um som é mais agudo, outro é mais grave; uma forma aponta para a direita, outra para cima.
Por que você anda? A força da gravidade puxa tudo para baixo, mas você força seu corpo e o põe de pé, encontrando um ponto de equilíbrio. Aí você levanta o pé e o leva para frente, caindo mas rapidamente encontrando um novo ponto de equilíbrio.
Só que a arte não é apenas equilíbrio. Um outro princípio da arte é a dinâmica. Pelo equilíbrio você anula as forças presentes em uma obra de arte ou as direciona para algum lugar. Mas a tendência de qualquer movimento é se acabar. Uma pedra jogada perde a força e cai. Só que a vida (e a arte) não se conforma com isso; as pessoas não se conformam com esse fim, inevitável. “O oásis existe”, escreveu Antoine de Saint-Exupèry, “porque insiste em resistir ao deserto que avança”.
Nosso desafio, nos dias de hoje, é encontrar um novo ponto de equilíbrio em que todos os seres (incluindo as pessoas) estejam presentes, não se conformando e resistindo ao mundo que uns poucos querem nos empurrar goela abaixo.

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Sobre percepções e verdades

Sempre costumo fazer, em alguma das minhas primeiras aulas de filosofia, uma dinâmica com a turma: a gente escuta duas gravações muito diferentes da mesma música (Aquarela do Brasil, na gravação da Elis Regina e na do Ray Connif) e aí parte pra um debate sobre as diferentes percepções sugeridas pelas gravações. Outra dinâmica, relacionada com essa, é colocar a turma em círculo e pedir para cada um anotar o que vê; depois, alterar drasticamente a ordem das pessoas, pedir novamente para anotarem o que estão vendo nesse novo lugar e conversar comparando as percepções, seja do que a pessoa viu antes e depois, seja as percepções do antigo ocupante do lugar e as do atual ocupante.
Por que isso?
É que percepção e expressão são dois pólos de uma mesma dinâmica: a nossa relação com o que nos cerca. Como dizer o mundo se não aprendemos a percebê-lo?
Mas não somos máquinas de perceber, programadas para fazer um "retrato fiel" da realidade. A percepção da gente é seletiva, influenciada por vários fatores. Gostaria aqui de chamar a atenção para dois deles: lugar e expectativa.
O que a gente vê é marcado profundamente pelo lugar onde a gente se encontra naquele momento. O que pode parecer um pênalti para um torcedor na arquibancada, talvez pareça uma falta cavada para o juiz que está ao lado, mas meio encoberto por outro jogador. Pegando ainda o gancho desse exemplo, a expectativa nos leva a interpretar os poucos dados trazidos pela percepção: o torcedor deseja que o juiz apite pênalti a favor de seu time; talvez o juiz esteja acostumado a ver um determinado jogador cavar uma falta. A expectativa e o lugar que a gente ocupa vão determinar, então, a nossa forma de perceber e de expressar (reagir, responder) o mundo.

Essa reflexão de hoje tem muito a ver com as notícias que correm nesses dias em nosso país. E "quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça"...